Direto do Blog do autor:

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“Como vocês sabem, escrever telenovelas não é coisa pra mariquitas. É assustador. É estressante. É difícil. Afinal, o autor da novela tem que atrair – e prender – a atenção de pelo menos 40 milhões de pessoas durante seis, sete, oito meses… E não pode se dar o direito de adoecer, se apaixonar, brigar com a chata da mulher ou o idiota do companheiro, se envolver com os problemas dos amigos, dos vizinhos e, principalmente, não pode relaxar ou se desviar do assunto principal – a feitura da novela – um único minuto. Claro, por tudo isso ele ganha um dos melhores salários do país, mas eu posso lhes garantir que toda a grana do mundo ainda seria pouca pra tanto sacrifício.

É por este processo que estou começando a passar agora, com um agravante. As últimas novelas, bem… Digamos que não foram nenhuma Brastemp (e pra que ninguém queira me capar por conta deste comentário eu também incluo na lista “Duas Caras” – uma novela minha). E assim a responsabilidade, que já é habitualmente grande, pra mim se tornou imensa. Uma vez Norman Mailer escreveu que a literatura era uma puta velha na qual todo escritor tentava provocar um orgasmo, mas conseguia apenas que ela desse uma gargalhada. Acho que se pode dizer a mesma coisa das telenovelas. Cada um de nós, quando entra no ar, acha que vai arrebentar a boca do balão, mas consegue apenas disparar alguns traques de criança.

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De qualquer modo aqui estou: são 19 horas e afinal consegui concluir a tarefa que eu pretendia dar por encerrada às 16, o quinto capítulo de “Fina Estampa”. Já falei lá em cima: tudo o que eu preciso é apenas atrair, prender e conquistar a atenção de pelo menos 40 milhões de pessoas pra minha novela. Qual a técnica pra conseguir isso? Quem disser que sabe é candidato ao fracasso irremediável, pois o gosto do público é volátil, muda a cada instante e é sempre uma incógnita.

Depois de ver as últimas novelas (inclusive, de novo, “Duas Caras”) decretei: chega de firulas! Agora quero fazer uma novela em que as personagens, de tão reconhecíveis, passem a mais absoluta credibilidade. Uma novela de todos nós, como diziam no lançamento de “Laços de Sangue” em Portugal: uma novela cujas personagens, de tão envolvidas com o nosso próprio cotidiano, pareçam ter saído da própria realidade, brotado bem ali na esquina da nossa casa.

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Griselda é, de longe, a personagem mais popular que já escrevi, e olha que já escrevi muitas. Em “Fina Estampa” ninguém foi além do centro, ou de Jacarepaguá, tendo a Barra da Tijuca como fulcro central… No máximo viajou um fim de semana pra Cabo Frio ou Itaipava.

Será que vai dar certo? É como eu falei: pra mim o público agora não quer ninguém que tenha vindo da Toscana, das Índias, de Paris ou de Milão, quer conhecer pessoas de carne e osso ali da esquina. É minha opinião… Mas será que é isso mesmo? Haja insegurança. E o remédio pra isso é escrever e reescrever muitas vezes, até atingir aquilo que, do meu rigoroso ponto-de-vista, me pareça a excelência.

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Pra tanto eu hoje acordei às 5h30m, e às 7h15m já estava no computador a escrever cena após cena. Ah, como eu adoro fazer isso! Escrever – juro a vocês – é muito melhor que viver a melhor das vidas. Faço pra ganhar dinheiro sim, se alguém falar em creative commons perto de mim eu saco do meu rifle… Porém, mais ainda, faço porque gosto, e porque não posso sobreviver sem estar diante do computador diariamente e ter a veleidade de achar que estou recriando a vida.

O fato é que o trabalho me impregna de tal forma que não percebo enquanto as horas passam. Às 15h uma voz interior me disse: tu tens que mijar porra! Mas só consegui levantar pra fazer isso às 18 horas. Foi depois que escrevi a última das 51 cenas do capítulo 005 de “Fina Estampa” e uma, duas, três vezes as reli todas, e fiz dezenas de correções e pensei… “Se pudesse amanhã eu começava do zero e escrevia tudo de novo!”

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Ah, se eu pudesse… Aí eu nunca entregaria os capítulos à produção, ficaria a reescrevê-los sempre pela vida afora… E nunca ficaria satisfeito com o resultado. Mas não é isso que esperam de mim, não é pra isso que me pagam, portanto… Enviei o quinto capítulo aos meus colaboradores para leitura e observações… E agora, às 19h30m, quase sem transição, não resisto: já vou começar a escrever o sexto.”