Entrevista com o “Fina Estampa” – Aguinaldo Silva
Jornalista, Roteirista, Autor de diversos sucessos da teledramaturgia brasileira, tais como Tieta, Roque Santeiro, A Indomada, Pedra Sobre Pedra, Fera Ferida, Vale Tudo, Senhora do Destino, entre outros. Aguinaldo Silva, competente no que faz, toma para si a responsabilidade até mesmo da promoção de suas obras. Ele topou essa entrevista ao Blog e nós, muito contentes, o agradecemos. Confira!
Por Isaac Abda
Você faz parte da Associação de Roteiristas? O que acha da atual conjuntura do Órgão?
Aguinaldo Silva – Não faço. Fui um dos fundadores, mas saí ao perceber que, mais do que defender os autores, o grupo que dominou a Associação estava mais interessada em fazer política partidária.
Emissora ou autor. Quem é o dono da obra? Você concorda?
Aguinaldo Silva – O autor deixa sua marca autoral em tudo que faz. Mas, pelo menos na televisão, o que consta do contrato que ele assina com a produtora, não deixa dúvida: o dono da obra é quem produz, No cinema também é assim, aliás: quem recebe o Oscar de melhor filme não é o diretor, nem o roteirista, é o produtor. Na televisão brasileira, mesmo não sendo o autor considerado “o dono da obra”, o respeito pelo que ele escreve é muito maior que no cinema, onde todo o mundo mete a mão no roteiro e acaba por estragá-lo.
A maioria dos autores bem sucedidos já sofreu acusações de plágio. O que você fez nessa situação?
Aguinaldo Silva – O pior mesmo é quando se é acusado por duas, três, quatro pessoas diferentes de plágio pelo mesmo trabalho. Isso acontece com frequência. Eu não faço nada, quem cuida desses processos é o produtor que, como eu disse lá em cima, é o dono da obra. Por sinal que essas acusações de plágio nunca são contra o autor da novela, e sim contra a Rede Globo, por uma razão simples: o pedido de indenização pode ser maior. É como bala perdida: as vítimas correm a dizer à polícia que foi a polícia quem atirou, pois nesse caso podem pedir indenização ao governo.
As coincidências existem. Ou não? Qual o seu posicionamento com relação ao que tem sido noticiado sobre a existência de personagens e tramas similares às suas, em novela da concorrência e até mesmo, na própria TV Globo?
Com o autor Walcyr Carrasco
Aguinaldo Silva – Creio que já demonstrei, com a publicação no meu portal do registro da sinopse de Fina Estampa, na Biblioteca Nacional, no dia 27 de julho de 2009, e com a declaração da Rede Globo de que a recebeu em maio do mesmo ano, que tais notícias não procedem. Além disso – ATENÇÃO! – a sinopse de Fina Estampa foi elaborada por 15 pessoas, no mês de abril de 2009, durante a minha primeira master class, E no caso de Morde & Assopra, várias vezes falei para Walcyr Carrasco, diante de testemunhas, sobre a história de Griselda e seu filho médico que se envergonhava dele, sem que ele, uma única vez, me dissesse que na sua novela, originalmente chamada “Dinossauros & Robôs”, havia uma história parecida. Repito: todas as nossas conversas em que falei pra ele sobre a trama central da minha novela foram diante de testemunhas.
Único autor na Rede Globo que só escreveu para o horário das nove. Seria um privilégio, exigência em contrato? Escreveria para outros horários?
Aguinaldo Silva – Não é uma exigência em contrato, mas é um privilégio. Isso me torna único. Não escreveria para outros horários e, se a emissora me pedisse isso, minha resposta seria simples e definitiva: pra outro horário eu não sei fazer.
Bajulações e críticas desqualificadas fazem parte da sua rotina? O que mais te irrita?
Aguinaldo Silva – As bajulações me fazem rir. As críticas desqualificadas eu não leio. De vez em quando um amigo lê, liga pra mim e diz: vou te contar o que Fulano de Tal escreveu a teu respeito. Aí, antes que ele leia a primeira palavra eu bato o telefone na cara dele… E se ele insistir perdeu um amigo.
Jornalistas sem crédito existem muitos. Alguém em específico que tenha te irritado profundamente nos últimos anos? Por quê?
Aguinaldo Silva – Não dá pra gente se irritar com besteira, né não? Os jornalistas sem crédito são tão sem crédito, que só dá pra gente rir deles. Afinal, eles são capazes de dizer que uma novela vista diariamente com verdadeira unção por 40 milhões de pessoas é ruim! E dá pra perceber nos textos deles que eles nem sabem quando se deve usar o S ou o Z…
Novela sua vinculada ao ranking da baixaria. O autor reage ou é indiferente?
Aguinaldo Silva – Desculpa, não entendi a pergunta. Existe um ranking da baixaria? Minhas novelas costumam figurar no ranking da audiência – das 15 de maior Ibope sete são minhas.
O modo peculiar com que a religião, o homossexualismo e o racismo, são tratados em suas novelas gera uma resposta do público, absolutamente previsível. Seria intencional?
Aguinaldo Silva – É intencional sim. Acho que a novela tem que ser exemplar. Ela tem que deixar claro para o telespectador que as coisas são assado e não assim, mas deveriam sê-lo. Mas eu nunca tento fazer a cabeça de ninguém, apenas exponho meus pontos-de-vida e tenho a veleidade de achar que, desse modo, levo o telespectador a pensar… Um pouquinho.
De certo que ainda existem pessoas fanáticas, ignorantes, disfarçadas de crentes, e isso já te inspirou a criar personagens polêmicos, mas ainda nenhum autor ousou escrever perfis de evangélicos não caricatos, bem sucedidos, com formação acadêmica, como também há na sociedade. Seria um preconceito?
Aguinaldo Silva – Não acho que seja um preconceito. O problema é que esses evangélicos não caricatos, bem sucedidos, com formação acadêmica, deixam que prevaleça a imagem negativa que as pessoas fanáticas, ignorantes, disfarçadas de crentes, impõem à sociedade. Acho que eles evangélicos de que você fala deviam ser os primeiros a saber disso e lugar contra o preconceito que resulta dessa visão errada da religião deles.Outro fator que contribui para que não se escreva os evangélicos não caricatos, é que eles se fecham muito e não aceitam a diferença, o outro, os católicos, espíritas e umbandistas, por exemplo.
Nem mesmo a Globo tem escapado de alguns fracassos na teledramaturgia atual. Isso te assusta?
Aguinaldo Silva – Eu sempre digo que cada novela para o autor é como se fosse um salto no escuro. Você nunca sabe onde vai parar, nem o que vai estar à sua frente. Sim, a cada estréia eu me assusto e me sinto inseguro como se fosse a primeira.
A novela Laços de Sangue, da qual você é supervisor, é sucesso de audiência e de crítica em Portugal, o mesmo não aconteceu com Tempos Modernos, exibida pela Rede Globo em 2009. Como supervisor do autor Bosco Brasil, você também se sente responsável pelo relativo fracasso?
Aguinaldo Silva – Não, porque o autor Bosco Brasil ignorou totalmente os conselhos que lhe dei, e deu à novela um encaminhamento com o qual não concordei desde o começo. Ou seja: não se pode dizer que fui o supervisor de Tempos Modernos, no máximo li os capítulos.
Fosse exibida no Brasil, Laços de Sangue, seria também um sucesso?
Aguinaldo Silva – Tenho certeza que sim. É uma ótima novela, que sofreu muito porque originalmente teria 185 capítulos, mas por causa do sucesso foi aumentada para 321. Mesmo assim liderou a audiência.
Estranhamente, após declarar que daria prioridade a sua agenda de shows, Fiuk estaria confirmado na próxima novela do Miguel Falabella. Ter o ator/cantor em Fina Estampa, foi um desejo seu ou do diretor Wolf Maia?
Aguinaldo Silva – Não foi desejo nem meu nem do Wolf, foi um factóide lançado por nós pra falar de Fina Estampa. Agora que a novela estreou, só mesmo um louco pra achar que Fiuk, praticamente um menino, teria condições de fazer aquele personagem mais velho que ele e tão complexo. Não por incapacidade, mas por falta de vivência.
Termina novela, começa outra e os seus autores, com raras exceções, sempre repetindo as suas tramas. Também há uma constante escalação dos mesmos atores, sendo o elenco da Globo tão diversificado e numeroso. Estar em evidência é realmente um fator tão importante a ser considerado na hora da escalação de atores?
Aguinaldo Silva – A novela tem que ir pro lado que o telespectador quer. Pergunta ao telespectador se ele quer ver uma novela só com caras desconhecidas? Ele vai te responder que não. Quanto a repetir as mesmas tramas, não creio que isso se aplique às minhas novelas. De qualquer modo, Hollywood também tem um elenco diversificado e numero, mas, dúvida, sempre chamam Merryl Streep ou Anthony Hopkins, porque meu caro, ter garantias na escalação do elenco faz parte do business… E não se iluda, estamos aqui falando disso, de negócios.
As suas novelas regionalistas estão entre as favoritas do público e em ratificação a isso o Canal Viva passou a reprisar Roque Santeiro. Cansou-se delas ou é uma idéia para um futuro não muito distante?
Aguinaldo Silva – Minha resposta tem a ver com sua pergunta acima. Não gosto de me repetir. Quando todo mundo achava que eu só sabia fazer novelas rurais, passei a fazer novelas urbanas. Quando todos pensarem que eu desaprendi a fazer novelas rurais, volto a fazê-las.
A Globo tem apostado nos remakes e segundo a mídia especializada, não pretende parar. Você apoiaria a idéia de refazerem alguns dos seus grandes sucessos?
Aguinaldo Silva – Tenho muitas histórias inéditas pra contar. E antes de morrer quero contar o maior número possível delas. Fazer remakes não consta dos meus planos.
Qual a sua observação sobre a recente “perda” dos direitos de toda a obra do autor Dias Gomes, pela Rede Globo?
Aguinaldo Silva – Não posso falar sobre o assunto porque o desconheço. Deve ter sido um bom negócio para a família. Mas, do ponto de vista artístico… Duvido que uma nova versão de O Bem Amado na Record faça o mesmo sucesso que faria na Globo.
Da Master Class (Curso sobre Roteiros) surgiu Fina Estampa, atual novela das nove da Rede Globo, e a 2ª turma também rendeu bons frutos. O resultado desta última, poderia ser visto em alguma outra emissora?
Aguinaldo Silva – Tenho um contrato de exclusividade com a Globo. Qualquer obra televisiva que leve o meu nome como autor só poderá ser produzida por ela.
Você e o Wolf Maia contrariando a opinião desfavorável, de alguns, à escalação da atriz Carolina Dieckmann, assim o fizeram. O que esperar da personagem Teodora em Fina Estampa?
Aguinaldo Silva – Alguns? Que alguns? Carolina Dieckman é uma das três atrizes que mais “vendem” na Rede Globo. Meia dúzia de ressentidos, fãs do Pânico, a odeiam, enquanto milhões de pessoas a adoram. O que se espera da Dieckman como Teodora é que ela brilhe, já que dessa vez terá uma personagem à altura do seu talento.
Os bordões “Vá Tomar no Toba”, “Arabastéia”, “Aquela Paz” e outros mais, se tornaram sucesso no Aguinaldo Silva Digital (site do autor). Pretende fazer alguma referência a este universo na novela Fina Estampa?
Aguinaldo Silva – Talvez, mas tambem vou criar bordões novos para usar na novela.
Você está promovendo um Concurso de Roteiristas em seu site. Quais os critérios de participação?
Aguinaldo Silva – O regulamento ainda está em fase de elaboração. Tudo o que posso dizer é que o prêmio será de cem mil Reais, inteiramente bancados por mim. Nada de Lei Rouanet, captação ou coisa parecida – o prêmio sairá do meu bolso.
Muito mais que uma simples aventura, cercado de todos os cuidados que um bom empresário deve ter, há alguns meses você inaugurou um Restaurante em Portugal. Qual a resposta dos portugueses ao ‘Brasileiríssimo’, e quando o Brasil também conhecerá o seu lado empreendedor?
Aguinaldo Silva – O Brasileiríssimo é um sucesso… Mas depois disso eu me tornei sócio majoritário da Locanda della Mimosa, em Petrópolis, que é um dos restaurantes mais famosos do Brasil.
Com tantos projetos, uma nova edição da Master Class “seria” inviável, este ano. Sabe quando realizá-la?
Aguinaldo Silva – Não está nos meus planos fazer novas master classes… Mas darei cursos de roteiro na Casa de Cultura que vou inaugurar em breve em Petrópolis.
Você declarou ter assistido o Tropa de Elite II. Este filme mudou a maneira de enxergar o cinema brasileiro?
Aguinaldo Silva – Gostei mais do primeiro, mas sem dúvida os dois Tropa de Elite são cinema, coisa que os brasileiros às vezes se enganam redondamente quando pensam estar fazendo.
Wagner Moura é um profissional entre poucos, consciente do seu papel como ator. Já pensou em tê-lo em algum trabalho?
Aguinaldo Silva – O destino de Wagner Moura é brilhar em Hollywood… E eu não estou brincando não, estou falando sério. Um ator como ele logo é adotado pelos americanos, que não são nada bobos.
Certamente é do seu conhecimento que toda a coleção do Jornal O Lampião (destinado ao público Gay nos anos 1970) foi restaurada e digitalizada por um Centro de Documentação. Acredita que uma versão virtual e atualizada, faria sucesso?
Aguinaldo Silva – Não, porque cada coisa tem seu tempo. Lampião era feito sob os tacões da ditadura, era, a seu modo, uma espécie de guerrilha. Agora só seria possível com outro tom, digamos assim, mais descontraído. Não dizem por aí que no Brasil de hoje a liberdade impera?
Você foi colega do Antônio Chrysóstomo, personagem de uma história revoltante, e também um dos editores do Jornal O Lampião. Pode resumir quem foi este homem? Pretende desenvolver algum projeto sobre ele?
Aguinaldo Silva – Pra resumir: ele foi acusado de ter molestado a filha adotiva. Estranho, porque, sendo ele homossexual, se quisesse molestar alguém teria adotado um menino. Foi julgado e absolvido, mas nunca se recuperou do golpe. Morreu cedo. Quero escrever sobre ele sim… Algum dia.
Inegavelmente, uma pessoa polêmica. A sua vida renderia uma rica biografia. Já houve essa proposta?
Aguinaldo Silva – A Folha de São Paulo mandou uma de suas repórteres, Laura Mattos, se oferecer pra fazê-lo. Morri de rir, pois ela não perde a chance de tentar me derrubar… E imagino o que ela faria comigo se pudesse escrever minha biografia.
O POSSO CONTAR CONTIGO agradece a gentileza e deseja ainda mais sucesso em tudo!
Aguinaldo Silva – Reze por mim querido, é disso que eu preciso.
