Logo na primeira cena, mostrando imagens do Rio de Janeiro de 1903, as cenas históricas são contrastadas com uma música atual de Marcelo D2. E é disso que se trata “Lado a Lado“, uma novela de época com um pezinho na atualidade. As pessoas agem e falam como no começo do século XX, mas participam de atividades que são repetidas até hoje, como os bailes de carnaval.
A história tem dois lados diferentes, de um vemos o lado pobre, trabalhador e alegre como bem manda o protocolo de agradar a emergente Classe C, e do outro o lado rico, com valores conservadores e uma formalidade própria das novelas sobre o passado. Cada um dos lados tem sua própria estética: o lado rico é sempre muito claro e com uma narrativa mais lenta, enquanto o lado pobre tem uma imagem mais suja, porém transborda animação.
Em cada um destes lados uma mulher representa os ideais “feministas” (em aspas porque os próprios autores, João Ximenes Braga e Claudia Lage não usam a palavra “feminismo” para explicar o engajamento de suas personagens). Isabel, interpretada por Camila Pitanga, é uma personagem cheia de força, embora tenha uma posição um pouco mais confortável se comparada aos outros personagens. Na mesma mão ideológica, Laura, interpretada por Marjorie Estiano, se mostra mais engajada na defesa da liberdade da mulher por estar presa a uma sociedade que a obriga a ser uma esposa subserviente. Os dois papéis parecem desafiadores, mas as duas atrizes se mostram capazes de revelar o valor das mulheres do Brasil do século XX.
Uma das maiores preocupações que tinha quanto à novela foi na escalação de Patrícia Pillar como a vilã Constância. O nome da personagem foi muito bem escolhido, pois ela se mantém constante na arte do preconceito, afinal é uma mulher criada antes da abolição da escravidão, com todos os pensamentos que se espera de alguém assim. “Gostam de música de negros. O tal do samba.“, diz a personagem comentando sobre um personagem que foi a um baile de carnaval, “Imagine, Celinha, se essa batucada de africanos macumbeiros algum dia vai ter qualquer importância para o Brasil“. Só eu vi um pouco da Flora de “A Favorita” aí?
Como em todo primeiro capítulo, a novela apenas apresentou os núcleos principais e seus conflitos. O foco foi em Isabel e Zé Maria (Lázaro Ramos), e sua relação de atração e repulsa, e em Laura com Constância, com a velha história da mãe dominadora e da filha com pensamento moderno. Tudo foi mostrado de maneira simples, e cativante, porém com uma velocidade baixa que pode assustar quem é acostumado à agilidade de “Malhação” (que é exibida antes) ou com o caos de “Cheias de Charme” (que é exibida depois).
Mesmo com os defeitos pequenos, a novela se mostra como uma opção interessante. É muito bem produzida, como é de se imaginar do tão falado Padrão Globo de Qualidade, e consegue incluir as classes mais populares em uma novela de época. Mostrar a origem do samba e das favelas, no fim, é um tema muito oportuno para este momento da televisão brasileira.
Esperamos que, assim como na vinheta de abertura, que contrasta a liberdade do lado pobre e a rigidez do lado rico, a novela consiga mostrar todos os lados dessa sociedade tão distante e tão próxima de todos nós.
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