CRÍTICA/Sotaques
Os sotaques raramente funcionam bem na TV. Por um motivo simples: uma sonoridade, quando não é inteiramente adaptada/necessária, fica falsa. Basicamente é isso, mas ainda serve para distanciar o ator de seu personagem, enfraquecendo seu desempenho e, em casos mais graves, pode arrastá-lo ao ridículo.
No caso do humor, esse distanciamento pode virar um capital favorável. Se o ator forçar um sotaque e com isso deixar claro que também está se divertindo com ele em cena, tudo acontece às mil maravilhas. O humor se mostra duplamente — no texto, que é engraçado, e na “real”. Fica orgânico.
Um exemplo perfeito disso foi uma cena de Murilo Benício em que Victor Valentim recebeu a visita de Camila (Maria Helena Chira) dia desses em “Ti-ti-ti”. Assim que ela chegou, começou aquele plec-plec das castanholas que já é um anúncio de coisa boa à vista. Aí Benício começou seu show, brincando com o acento espanhol: “Fiz para la senhorita lo más rico bestido de nobia que poderia de-se-ar”, disse, praticamente saboreando os clichês que qualquer malandro que quer fingir-se de espanhol saberia imitar, fazendo uma pausinha no “no-bia”. Depois, pediu ao falso assecla, Francisco (Rodrigo Lopez), un ba-so de agua. Diante da expressão intrigada dele, que repetia: baso?, se manteve sério e deixou a mocinha explicar: “É um copo”.
Isso tudo para dizer que o sotaque pode ser engraçado. O problema é justamente que, quando usado a sério, muitas vezes ele fica engraçado também.
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