Crônica: No Lixão com Carminha

17/10/2012 às 16:05 · Tempo de leitura: 3 minutos

“Avenida Brasil” está chegando ao fim. Apesar dos erros: muitos buracos no roteiro, uma barriga cansativa e uma trilha sonora de doer os ouvidos, a obra de João Emanuel Carneiro vai deixar saudades, pois teve mais acertos e o principal deles atende pelo nome de Carminha.

A atuação de Adriana Esteves convenceu até mesmo nos momentos em que o autor escorregou, mas justiça seja feita: no geral, o texto de Carneiro é acima da média, o que falta é ele se adaptar melhor ao número expressivo de capítulos. Caso ele tivesse permanecido no cinema, não me surpreenderia em vê-lo ganhar um Oscar. E a prova disto está em Carminha, uma personagem digna de Dostoievski que ele conseguiu fazer funcionar na televisão.

Não busco discutir quem tem o maior mérito no sucesso da vilã que cativou o país, mas sim homenagear esta criação antológica que transformou “Avenida Brasil” na “novela da Carminha”. Nina perdeu espaço, Cadinho sempre foi odiado e o divino era apenas suportado. Quem carregou a trama nas costas e reinou absoluta foi Carmen Lucia.

Despeço-me desta personagem compartilhando com vocês uma crônica, de minha autoria, sobre a cena em que Carminha divaga bêbada após descobrir a traição de Max

Crônica:

É divino viver, mas há dias que a decepção nos faz pensar que vivemos no lixão. É quando um tufão devasta o coração e parece que só resta sentar à mesa de um bar ouvindo Carminha blasfemar. Faz sentido acreditar que o ser humano deu errado quando nada dá certo. Culpar Rita é o caminho mais fácil, difícil é aceitar que a lambança foi feita por nós mesmos.

Quem achávamos o máximo foi desleal, o amor não chega na vida real e para piorar temos que aguentar às cobranças de Ivana, sobreviver às fofocas de Zezé. Quando pensamos que alguém chega para ajudar, de repente nos deparamos com Jaques Wagner esbravejando: “Me serve, Bahia. Me serve!”. De dominador a dominado. Há dias que já acordamos derrotados.

Vem a vontade de sumir. Sem se importar com mais nada mandamos o motorista tocar para o inferno. Afundamos na Barra Funda em horário de pico. Nem o rico escapa quando o luxo começa a virar lixo. Somos recolhidos como cacos de vidro. Carminha vai na frente, enquanto o carma parece nos seguir logo atrás. Com voz aveludada nos entregamos à Senhora Depressão.

Chorando na cama, batendo o carro ou comendo feito Ágata. Sim, Senhora. Mas é preciso fazer dinheiro, lindo por fora, lixo por dentro. Ninguém percebe o detrimento. Mãe Lucinda cata os restos do coração. Reciclagem para a cabeça não explodir com a poluição dos maus pensamentos.

Não queremos tchu, não queremos tchá, na frustração só queremos apoiar o discurso de Caminha. Vingança e picuinha. O caminhão vai se distanciando, a garrafa esvaziando. É quase o fim e a dor no rim não passa, o cotovelo não disfarça. Mais triste que o núcleo do Cadinho. Um completo lixo de mãos dadas com Carminha no lixão.

Mas eis que algo acontece, a expectativa aumenta, é a reviravolta depois de cem pedradas. A felicidade diz: “Oi, oi, oi” e surpreso espero que no próximo capítulo o lixão em mim vire mansão. Congelo sorrindo.

Por: Uziel Moreira – Blogs POP / Séries & TV

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