Criador de duas vilãs que marcam a teledramaturgia até os dias de hoje — Flora, de “A favorita” (2008), e Carminha, de “Avenida Brasil” (2012) —, João Emanuel Carneiro se esforça para não se repetir. O autor agora aposta suas fichas em Romero Rômulo (Alexandre Nero), protagonista de “A Regra do Jogo”, e avisa que a história que estreia nesta segunda, dia 31, às 21h, na Globo, é “uma novela muito masculina”.
Além da pressão de repetir o sucesso de “Avenida Brasil”, a trama tem a missão de recuperar a audiência do horário nobre. Em entrevista à Revista da TV, do O Globo, João fala da expectativa em torno do novo trabalho, e declara que sentir medo é importante e adianta detalhes da história.
RESGATE DE AUDIÊNCIA
“É mais difícil estrear depois de uma novela que não foi bem. É muita responsabilidade. Estou tentando fazer o melhor. Se vai ser um fenômeno como “Avenida Brasil”, não sei. Tenho que resgatar a audiência que a novela anterior espantou, captar de novo a atenção do telespectador. E tenho a impressão de que vai ser gradual. Mas não acho que o público se cansou das novelas. Ele só não fica quando a novela é ruim.”
COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ
“Estou ansioso e tenho medo. O escritor não pode perder o medo de ser chato. Dá um medo enorme, mas é positivo. O ofício de escritor de novela é tão pouco garantido. É um negócio de risco. Você tem que se provar a cada novela. Trabalho como se não tivesse feito nada antes.”
FÓRMULA NOVA
“Tem gente que repete sempre a mesma novela porque não tem outra na cabeça. Procuro não fazer isso, não repetir a fórmula. Tenho que inventar para mim um desafio novo como autor. Senão, a tendência é mesmo se repetir. A novela agora é muito masculina.”
SEMELHANÇAS COM ‘A FAVORITA’
“A novela é um suspense. Tem mais a ver com “A gavorita” do que com “Avenida Brasil”. A vingança não é o assunto principal, é um satélite (Dante, personagem de Marco Pigossi, quer vingar a morte de seu pai biológico). O tema aqui é outro.”
NOVELA MASCULINA
“A novela fala sobre condenar ou absolver as pessoas, trata de ética. Sobre os personagens centrais paira a balança do julgamento. Romero (Alexandre Nero) está no meio da balança entre o bem e o mal. Juliano (Cauã Reymond) saiu da prisão e se diz injustiçado, como o pai, Zé Maria (Tony Ramos). Tóia (Vanessa Giácomo) é uma heroína que rouba para pagar a cirurgia da mãe. Quem está com a razão? Mas os personagens são passíveis de redenção.”
HISTÓRIA PARA TODOS
“A novela tem que ser uma refeição variada: com entrada, salada, frango, sobremesa… Tentei fazer uma história que tivesse para todo mundo. Quando você faz novela das nove, se sente cozinhando para muitos.”
SEM APELAÇÃO
“A TV tem que ser libidinosa. Mas você não pode afrontar sexualmente o público. A trama do MC Merlô (funkeiro interpretado por Juliano Cazarré que se relaciona com suas duas dançarinas) tem humor e libido. Mas ele é uma criança grande e forte. Não acho que é preciso apelar nas cenas de sexo.”
O PÚBLICO É CONSERVADOR?
“Não acho que o público esteja mais conservador. O telespectador vai sempre assimilar uma boa história.”
A NOVA CARMINHA?
“Atena (Giovanna Antonelli) é uma estelionatária, uma bandida que, paradoxalmente, é uma pessoa autodestrutiva e apaixonante. Mas ela pode ser redimida.”
NOVELA COM HUMOR
“A novela tem muito humor, e tentei fazer isso de forma mais integrada, sem ter um núcleo específico de humor. Atena, por exemplo, tem muito humor. Mas eu e Amora (Mautner, diretora de núcleo) não queremos uma comédia atuada, tentamos fazer algo mais orgânico.”
SEM MUDANÇA DE ROTA
“Não sigo orientação de grupo de discussão para mudar tramas. Qualquer emenda sai pior do que o soneto. Você tem que gostar da novela que escreve.”
FAVELA COMO CENÁRIO
“Ter a favela como cenário é uma ideia antiga minha. O Morro da Macaca é uma favela que deu certo, uma favela modelo, um pouco inspirada no Vidigal.”
COINCIDÊNCIA
“O Feliciano (Marcos Caruso) não tem nada a ver com o (deputado) Marco Feliciano. O nome veio de um tio-avô meu.”


