Quando a pessoa chega em casa ouve aquela voz estranha, do fundo de sua alma, dizendo: ligue a tv, ligue a tv. Há duas gerações ela era ignorada com mais facilidade. Ah, vou pra rua conversar com os vizinhos, vou jogar bola com amigos. Veio a década de 90 e esta voz ficou mais forte; das casas passamos para apartamentos, das calçadas para pequenas reuniões em restaurantes. Depois veio a tecnologia avançadíssima, esta que trava nossa visão no que está sendo mostrado. Durante o futebol vemos detalhes do gramado, os resultados do placar vem em lances fantásticos feitos por computadores caríssimos. Som, definição, setores de marketing com grande experiência para nos manter diante do incrível mundo televisivo. E agora, século 21, eles vão além da tela, saltam na nossa sala e dominam nosso ambiente em incríveis efeitos 3D. Como recusar o desejo daquela voz estranha?
Antes, era em preto e branco, cheio de “fantasmas”, chuviscos por toda tela, som distorcido. Os filmes rebentavam, os antigos eram cheios de riscos, a programação começava 17h e terminava às 24h. Dava dor de cabeça. Dava raiva. Se a casa ficava longe do transformador da rua, pronto, tínhamos que levantar para ajustar o regulador de tensão da nossa tv, senão a imagem variava o tamanho. Sim, dava tanta canseira ver algo na tv, que optávamos por livros, revistas ou sonhávamos em longas conversas com vizinhos.
Como trocar tanta beleza, tanta qualidade, tantos efeitos por uma rua monótona, perigosa, onde sairemos e não veremos nossos conhecidos, pois todos estarão presos em alguma teia televisiva? Como pegar um livro, que exige concentração, que não trás tanto brilho, que quer nos mostrar uma história em 20 horas de leitura, sendo que a tv, em pouco menos de 2 horas trás um filme completo?
Essa realidade é dura, leitor, a tv hipnotiza. Atingiu tal condição ao ponto de não travarmos uma revolução interna entre a voz mandando ligar e a pedindo para curtir algo fora da sala. Esta querendo a tv não está errada, ela possibilita conhecermos o mundo sem gastarmos uma caloria sequer. Ela nos indica o caminho mais fácil e seguro para vermos os melhores times do mundo, conhecermos as histórias contadas conforme nossa realidade cultural. E está ali, gratuitamente, digital, nos atraindo com seu brilho como se fôssemos mariposas.
A voz pedindo para não ligarmos é que está sendo desligada aos poucos. Cada nova invenção a deixa mais fraca, cada recurso de marketing aprovado pela setor comercial a torna mais “idiota”, cada cansaço das horas trancados no trânsito ou as infindáveis correrias no trabalho ou faculdade nos forçam a relaxar diante da fácil tentação da telinha.
Como balancear isso? Como aproveitarmos nossa querida televisão sem transformarmos a vida real em simples troco? Todos precisamos considerar o atual papel da nossa tv no cotidiano. Devemos lembrar o custo de milhões para manter uma rede no ar e, por isso, o uso da inteligência humana afim de atrair-nos cada vez mais para a frente da vida televisiva. Hoje, pleno domingo, quando lembrar da praia, do engarrafamento para chegar lá, do alto preço do guaraná, das filas nos restaurantes, não cale sua voz interior. Pelo contrário, use o bom senso para conviver neste mundo repleto de opções e interesses.
