MARCELO REZENDE - "Quero entrevistar Bin Laden"

04/10/2010 às 20:31 · Tempo de leitura: 5 minutos

Aos 59 anos – 42 deles dedicados ao jornalismo – Marcelo Rezende volta para a “Rede Record” e para o que mais gosta de fazer: grandes reportagens investigativas – agora para o “Domingo Espetacular”. No dia 23 de setembro, quando retornou à casa depois de 5 anos, foi recebido pelos jornalistas Celso Freitas e Percival de Souza, que vieram desejar as boas-vindas e abraçar o amigo de longa data. Ele conheceu sua nova equipe e falou sobre a carreira, jornalismo e seus planos.

1 – Você começou a trabalhar aos 17 anos. Como virou repórter?
Arrumei meu primeiro emprego de um jeito esquisito. Um primo trabalhava no “Jornal dos Esportes” e eu estava olhando a redação e tinha um sujeito muito enrolado, datilografando pilhas de páginas. Fui até ele e perguntei se queria que eu ditasse e ele aceitou. O jornal promovia um campeonato de várzea e havia um time chamado Couve-flor, que eu ditei como “couve hífen flor”. No dia seguinte meu primo me ligou perguntando se eu queria trabalhar lá. Ele me disse que o homem ficou impressionado que eu chamei hífen de hífen e não de “tracinho”. E ele era o diretor do jornal. Virei
repórter estagiário.

2 – E como você se tornou repórter investigativo?
Eu trabalhava na editoria de esportes da “Globo” e um sujeito me deu uma tarefa. Fui lá e cumpri. Só que não era para ser cumprida. Acabei assumindo a culpa e quis pedir demissão. Me mandaram para a editoria Rio (de notícias da cidade). Nisso, mataram um cara envolvido com a amante de um playboy ligado a um grupo de extermínio. Para minha sorte, o delegado do caso fazia judô comigo. O Armando Nogueira e a Alice Maria (chefes do jornalismo) falaram: Você nasceu para fazer polícia, cobrir problemas sociais. Aí fui aprendendo.

3 – Você não tem medo por estar sempre envolvido com denúncias?
Já sofri ameaças, mas não tenho medo de ameaça. Tenho pra mim que, quem tem medo, tem coragem e quem tem valentia, é covarde. O medo é o que me dá contenção e equilíbrio para ter coragem ao invés de ser valente. Eu avalio cada passo em uma reportagem. Jornalismo não foi feito para morrer, foi feito para fazer notícia.

4 – Seu quadro no “Domingo Espetacular” será investigativo?
A ideia vem de algum tempo. A proposta é que haja um quadro no final do programa com uma grande reportagem investigativa ou de denúncia. Será um quadro grande, de cerca de 50 minutos. É como fazer uma teia de aranha, amarrar as situações. Assim não tem como o espectador escapar, ele fica preso à história e à trama.

5 – Por que você decidiu voltar para a “Record”?
Eu deixei grandes amigos aqui na “Record”, da direção de jornalismo ao segurança da portaria. Eu acho que aqui é o lugar, assim como o Obama (presidente dos Estados Unidos) acha que o Lula é o cara. Eu estava feliz na “Band”, foi uma choradeira quando eu saí, mas aqui eu recebi um convite irresistível: o que eu farei aqui será um resgate na minha carreira, eu gosto de ir a campo, gosto de colocar meu olhar sobre as coisas, criar cenários de investigação.

6 – Está faltando denúncia no jornalismo brasileiro?
Denuncismo e interesse particular tem muito, mas denúncia, na tevê, pouca. Temos grandes jornalistas nessas áreas, mas é muito caro manter esse trabalho. Gasta-se muito tempo para apurar um fato, há reportagens que podem demorar 1 ano. Quando entra no ar, rasga o telespectador, mas é caro.

7 – Muitas pessoas criticam programas policiais que passam na tevê. O que você acha deles?
Há jornalista que critica, que chama de “jornalismo mundo-cão”, mas aquilo que está ali na tela aconteceu na esquina, ninguém inventou, não é ficção. O que esses programas reproduzem tem grande aceitação não porque provocam uma catarse pela tragédia, mas porque aquilo faz parte da vida das pessoas, elas sofrem aquilo diariamente. Esses programas lidam com questões sociais graves, como eu vi ontem o caso de uma criança de Mauá (SP) que não recebe o remédio da prefeitura há 3 meses. Para mim é denúncia, é serviço para a sociedade. A tevê tem de ser de utilidade pública.

8 – Existe censura na imprensa?
Censura, não. Existem conveniências. E elas são lícitas e aceitáveis do meu ponto de vista. Todo mundo tem interesses. As empresas também têm, mas elas dão um jeito de isso afetar minimamente o jornalismo para não perder a credibilidade.

9 – Qual tem sido o papel da mídia nestas eleições?
A mídia reflete o que acontece nos bastidores, deste e de qualquer governo. É o papel dela, de bater na ministra (Erenice Guerra, ex-Casa Civil). Mas é fundamental respeitar a opinião do povo e se a população diz que Lula é o cara, a massa está com ele. Ele tem 85% de aprovação segundo a última pesquisa. Eu achava que o Chacrinha era o maior comunicador do País até ver o Lula discursar. Ele fala o que o povo quer ouvir. A mídia não tem nenhum poder, é o Lula quem manda nestas eleições.

10 – O que falta na sua carreira?
O que eu queria mesmo era entrevistar o Osama Bin Laden. Tenho uma vontade fascinante de falar com ele. Fico pensando o que faz um cara ser tão arraigado a algo, acreditar tanto em uma coisa para ser capaz de atacar pessoas indiscriminadamente, matar inocentes. Não tenho outra grande ambição. O que aprendi nestes anos todos de carreira é que cada passo é um passo. Deus nos deu a vida para curtir, não para sofrer.

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