Politicamente incorreto
Que a reprise de “Vale tudo” no Viva esteja mobilizando as plateias é algo facílimo de se compreender. O texto brilhante de Gilberto Braga e Aguinaldo Silva dito por atores maravilhosos sob a direção competente de Dennis Carvalho explica. É tudo tão bom que a gente perdoa as cenas longas para os padrões de hoje, assim como a qualidade da imagem infinitamente inferior ao que se tem em 2010.
Mas há outro detalhe fundamental que diferencia essa novela das atuais: a liberdade de fazer ficção sem medo de ser politicamente incorreto. “O Brasil é um país de jecas, ninguém aqui sabe usar talher de peixe”, dizia Odete Roitman (Beatriz Segall). “Não sei como vocês conseguem respirar o ar desse país”, continuava ela. “Esse povo aqui é preguiçoso, não trabalha, só fala em crise. Aqui tem uma mistura de raças que não deu certo. Já os imigrantes alemães e portugueses que vêm pra cá progridem. Trabalham. Abrem um comerciozinho, uma padaria, um botequim…”. Essa era Odete Roitman que o Brasil odiou tanto.
Hoje, fazer uma personagem ao mesmo tempo odiosa e realista é um desafio e tanto. Há associações de defesa de todos os grupos minoritários, de animais, de tudo. Eles fazem uma grita com efeitos deletérios para a ficção, em vez de entender que o espectador não é tão ingênuo. Ninguém caiu de amores pela arquivilã de “Vale tudo”. Ao contrário, o espectador entendeu que ela falava absurdos. As discussões, quando livres, pegam fogo. E é preciso poder discordar para que a reflexão seja completa.
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