A HEROÍNA DOS NOVOS TEMPOS

Maior sucesso recente das novelas da Rede Globo, Fina Estampa consagrou Griselda, vivida por Lília Cabral, como o retrato da ascensão social e da honestidade que os brasileiros almejam.
Repórter policial de um jornal carioca, Aguinaldo Silva morava em um apartamento térreo no bairro de Santa Teresa quando deparou com um difícil problema doméstico: a velha tubulação de gás havia entupido de tanta ferrugem. De pronto, decidiu recorrer aos serviços da profissional mais reputada do bairro, uma viúva portuguesa que consertava encanamentos e fiações diversas e era conhecida tanto pela eficiência quanto por seu folclórico buço (tão basto que merecia ser chamado de bigode). Eram os anos 70, quando telefone era quase um artigo de luxo. Aguinaldo teve de buscar a senhora na rua para combinar o serviço. “Era difícil entrar ou sair do bonde sem ver aquela mulher andando pelo bairro”, lembra Aguinaldo. Ele ficou impressionado com aquela mãe de três filhos, que tinha um jeito masculino de andar, vestia macacão o dia todo e nunca se separava de sua caixa de ferramentas.
Em 2009, já consagrado autor de vinte produções da Rede Globo, incluindo sucessos como Tieta, Roque Santeiro (junto com Dias Gomes) e Senhora do Destino, o escritor recuperou a figura de seu passado no exercício que propôs em um curso para autores de televisão. “Vamos elaborar uma novela sobre uma mulher chamada Griselda”, anunciou aos alunos, para em seguida descrever a faz-tudo de Santa Teresa. O entusiasmo dos estudantes convenceu o autor veterano de que havia ali uma heroína de força ímpar, em tomo da qual poderiam gravitar os deitais personagens de uma grande novela. Surgia, assim, o Pereirão: uma batalhadora, tal como a mulher real que a inspirou, dotada ainda de uma modelar na defesa do que é justo e correto. Interpretada com vigor e honestidade por Lília Cabral (escolha do autor para o papel), Griselda da Silva Pereira fez com que Fina Estampa “pegasse na veia” do público, para usar a expressão do próprio Aguinaldo Silva. Ainda que tenha ficado rica por um golpe da sorte na loteria, ela é um exemplo típico das tão decantadas classes ascendentes do Brasil atual -um público que, conforme indica pesquisa da própria Globo, ansiava por se ver representado na TV. O episódio em que Griselda deu uns tabefes em sua arqui-inimiga Tereza Cristina, interpretada por Christiane Torloni – uma boa novela exige grandes barracos e grandes desforras -, foi visto por impressionantes 41 milhões de pessoas, o que equivale aproximadamente à população da Argentina.
Fina Estampa arrancou o horário das 9 de um longo período de estagnação, no qual a Globo, ainda que mantendo sempre a liderança diante das concorrentes, patinava em audiências tímidas. No seu primeiro terço, a média do folhetim foi de 38 pontos, e os episódios mais recentes têm ficado acima dos 40. Parece pouco na comparação com os mais de 90 pontos que Roque Santeiro chegou a alcançar na década de 80. Mas a realidade hoje é outra: a concorrência entre emissoras está mais pulverizada, a televisão a cabo está se disseminando e há novas formas de informação e entretenimento – especialmente através da internet. A capacidade que as novelas da Globo sempre tiveram de influenciar nas mudanças de comportamento e lançar modas – basta lembrar os brincos gigantes popularizados pela viúva Porcina de Roque Santeiro, ou a voga de adereços “orientais” na trilha de O Clone – hoje parece bem mais limitada. Nessas condições, é tanto mais impressionante o feito de Fina Estampa: a novela incorporou Griselda ao imaginário dos brasileiros.
Trata-se de uma figura que ao mesmo tempo encarna a novidade – os valores do expressivo contingente de brasileiros que nos últimos anos ingressou na sociedade de consumo – e representa tradições que muitos teriam por antiquadas: a retidão moral, a autoridade (amorosa, mas inabalável) que se impõe na educação dos filhos.
A força de Griselda é tal que todos os núcleos e tramas da novela parecem de algum modo convergir para ela. Na contramão de novelas recentes que chegavam a ter mais de uma centena de atores, Aguinaldo Silva enxugou o elenco para quarenta, dos quais só uns 25 realmente participam das tramas centrais. Com esse esquema, todas as fichas estavam na casa da personagem de Lília Cabral – e ela arrebentou a banca. “Griselda é um dos personagens mais significativos dos últimos tempos, principalmente para esta nova classe consumidora que se sente reconhecida e realizada por ela. É o encontro perfeito entre realidade e ficção”, diz o especialista em novelas Mauro Alencar. Os conflitos de Pereirão e sua família não dão trégua. Sua filha namora um mau-caráter, o filho mais velho é apaixonado por uma vigarista com quem já teve um filho, e o do meio, de tanta vergonha da condição suada e trabalhadora da mãe, chegou a contratar uma atriz para fazer-se passar por ela junto à família da noiva.
Griselda ainda tem embates tremendos, e não raro divertidíssimos, com a esnobe (e criminosa) Tereza Cristina, sua futura vizinha em um condomínio fechado da Barra da Tijuca. A vilã, aliás, é responsável por alguns dos diálogos mais afiados da novela, com sua combinação explosiva de perversidade e histeria. Seu auxiliar Crô, vivido com impecável timing címico por Marcelo Serrado, diverte pelo repertório de epítetos egípcios (Rainha do Nilo, Nefertiti da Barra, Senhora das Terras Férteis etc.) com que se dirige à patroa – que retruca com alguns dos mais cabeludos (ou bigodudos) e insolentes insultos já ouvidos numa novela. “É engraçado: as pessoas me param na rua e falam que não conseguem odiar Tereza Cristina”, diz Christiane.
A protagonista ao mesmo tempo simples e orgulhosa, cheia de fúria e também de humor, devota de Nossa Senhora de Fátima (católica, a atriz reza para a mesma santa) e moradora de um sobradinho no Quebra-Mar, região humilde da Barra da Tijuca, ilustra o cuidado da Globo para atingir com mais sensibilidade a classe C. “Nossas pesquisas revelaram que as classes populares vêm aumentando sua participação na sociedade e passando por mudanças de hábitos e comportamento. Aguinaldo foi feliz em perceber essa demanda”, diz Manoel Martins, diretor-geral de entretenimento da Rede Globo. A ascensão de Griselda para a classe A, graças a um bilhete premiado, terá sua culminância no episódio desta quarta-feira, quando sua família se muda para o condomínio de luxo onde já vive sua rival. A repulsa preconceituosa de Tereza Cristina por Griselda será anulada pela gravidez de sua filha Patrícia (Adriana Birolli) – o pai é Antenor (Caio Castro), filho da “bigoduda”. Uma cena que promete ser forte nos próximos capítulos colocarão as duas inimigas lado a lado, rezando a Nossa Senhora depois que Patrícia sofre um acidente. Griselda pede pela vida do neto, enquanto Tereza Cristina ora por um aborto.
Nos grupos de discussão promovidos pela Globo, Griselda foi, como era de prever, a preferida entre as espectadoras. Divididas em seis grupos com vinte integrantes cada um, mulheres das mais variadas condições sociais elogiaram a honestidade da protagonista. “Ela é uma verdadeira heroína popular, um exemplo em um momento no qual os brasileiros estão atrás de exemplos”, diz Wolf Maya, diretor-geral da novela e intérprete do riponga Álvaro. A firmeza na educação dos filhos foi outro ponto destacado pelos grupos de discussão. Griselda, mais uma vez, é modelar: chegou a expulsar Antenor de casa quando se descobriu renegada por ele. Mais surpreendente foi o fato de o motorista Baltazar (Alexandre Nero) ser bem avaliado. Não, os espectadores não aprovam a violência de Baltazar, que volta e meia cobre a mulher, Celeste (Dira Paes), de hematomas e já tentou até esgoelá-la. Mas gostam da rigidez moral com que ele lida com os arroubos da filha adolescente Solange (Carol Macedo), uma “cachorra” incipiente que sonha virar estrela do funk.
O amparo desses coadjuvantes excelentes só enfatiza o desempenho irretocável de Lília Cabral. Da leitura da sinopse da novela até a estreia, a construção de Griselda tomou-lhe um ano. “Com o bigode e o macacão, eu tinha muito medo de fazer uma caricatura”, diz Lília. O jeito de andar de Griselda foi ensaiado em caminhadas matinais às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas: passos marcados e duros mostram o peso de uma vida de trabalho e sacrifício. Em um lance de inacreditável desprendimento da vaidade mais essencial, a atriz deixou de depilar o buço em janeiro, ainda no meio das gravações da série Divã – e passou os meses seguintes circulando com a penugem bem à vista sobre o lábio superior. A qual, para alívio geral, foi removida à força pela filha de Griselda para que ela se mostrasse mais apresentável em um jantar de comemoração da nova fortuna.
A concentração de histérias em torno de Griselda exige da atriz dedicação absoluta. De segunda a sexta-feira, Lília faz até 100 cenas (para fins de comparação: em A Favorita, na qual vivia a dona de casa reprimida Catarina, ela gravava em média doze cenas por semana). Lília acorda às 6 da manhã e se tranca em seu escritório por três horas, para estudar os roteiros. “Às vezes, ensaio falando tão alto que algum empregado da casa vem perguntar se está tudo bem.” Um motorista da Globo passa em sua casa às 10 horas, para levá-la ao Projac, a central de produção da emissora, localizada em Jacarepaguá. É no trajeto que Lília assiste, em um tablet, ao capítulo de Fina Estampa exibido no dia anterior. Volta para casa por volta das 9 e meia da noite e vai para o escritório para mais uma hora de estudos. Essa rotina árdua exigiu que as caminhadas pela Lagoa fossem canceladas, ainda que a atriz tenha passado a vigiar a dieta para se adequar ao figurino de milionária.
Mas, ao contrário de intérpretes que fazem “imersões” radicais no personagem e andam pelo estúdio falando e agindo como uma criatura de ficção, Lília só se transforma no Pereirão quando o diretor grita “gravando”. “Passo o dia todo no Projac. Seria maluquice andar no estúdio como o Pereirão”, diz. Nos intervalos das gravações com o núcleo da família Pereira, cujos atores vão de 22 a 35 anos, Lília, com 54, não demonstra nenhuma defasagem geracional: integra-se com naturalidade a conversas sobre redes sociais e hits da internet – no dia em que visitou o estúdio, Caio Castro arrancava risos dos colegas com uma imitação de um garotinho cearense que se tornou hit do YouTube cantando O Pintinho Piu. Talvez lhe seja tão fácil “entrar” na protagonista porque a atriz tem uma coisinha ou outra em comum com ela. A reportagem de VEJA presenciou, na casa da atriz no Jardim Botânico, uma cena que, guardadas as diferenças, poderia estar na novela. Durante o jantar com o marido e a filha única, de 14 anos, Lília recusou repetidas e enérgicas vezes um pedido da menina: um vestido de festa novo. Está é a firmeza que o Brasil aprendeu a admirar na figura de Griselda da Silva Pereira.
COMO OS PLANETAS SE ALINHARAM – Uma conjunção de cinco fenômenos fez de Fina Estampa maior sucesso recente da telenovela brasileira
. 1 – A NOVA CLASSE C – As classes C, D e E formam 90% do total da população brasileira. Pesquisas encomendadas pela Globo mostraram que essa parcela deseja se ver retratada na TV – ao contrário do que acontecia antes, quando as novelas se dedicavam sobretudo a saciar a curiosidade dos espectadores em torno da intimidade dos mais ricos. No jornalismo e na dramaturgia, a emissora tem se esforçado para falar com a maioria emergente do Brasil, como demonstram séries de sucesso como Tapas & Beijos e A Grande Família. Fina Estampa é a novela que melhor conseguiu incorporar o tema da ascensão social a sua trama.
. 2 – AS MULHERES NO COMANDO – Não só do país, mas das casas brasileiras: dados do IBGE mostram que a proporção de lares chefiados por mulheres subiu de 27% para 36% entre 2001 e 2009. São hoje mais de 21 milhões de famílias semelhantes ao clã Pereira da novela. Outro estudo recente, do instituto Data Popular, demonstrou que as mulheres da classe C contribuem com 41 de cada 100 reais da renda familiar – na classe A, sua fatia é de 25 reais. Segundo o mesmo estudo, a proporção de casas chefiadas por mulheres é maior na classe C do que nas A e B. Griselda, a heroína vivida por Lília Cabral, é um espelho fiel dessas batalhadoras: na casa onde vivem os filhos e um neto, é ela a responsável por administrar as contas e decidir o que comprar.
. 3 – BOA FASE DA GLOBO – Na última década, o fraco desempenho das novelas fez soar o alarme na Globo. Viver a Vida. no ano passado, foi um ponto historicamente baixo no ibope das novelas das 8 (hoje, das 9), com média muitas vezes de irrisórios 30 pontos. Mas Fina Estampa retomou a trilha do bom folhetim, centrando-se nos fundamentos: elenco enxuto, de quarenta atores (contra até mais de 100 em novelas recentes), trama centrada em torno de uma única personagem forte e diálogos afiadíssimos. Seus setenta primeiros capítulos registraram média de 38 pontos de ibope na Grande São Paulo, com 62% dos televisores ligados. É o melhor primeiro terço de novela das últimas cinco produções levadas ao ar.
. 4 – A ASCENSÃO DE LÍLIA – No ano passado, assim que finalizou a sinopse de Fina Estampa, Aguinaldo Silva manifestou em seu blog o desejo de ter Lília Cabral no papel central. Só ela poderia viver a durona Griselda. A insistência do autor reflete o desempenho excepcional de Lília em 27 anos de Globo: com sua expressividade e a cuidadosa construção de personagens, a atriz estava em um período ascendente desde que vivera a amargurada Marta, de Páginas da Vida, em 2006. Seu cacife é tal que a emissora ouve e incorpora os projetos da atriz à programação: foi o caso da sérrie Divã, que já fora sucesso no teatro e no cinema. Lília respondeu ao blog de Aguinaldo com um bilhete simpático. E, aos 54 anos, encontrou em Griselda um papel antológico.
. 5 – A VIRADA ÉTICA – Nos últimos meses, as sucessivas quedas de ministros envolvidos em escândalos, como Wagner Rossi, da Agricultura, e Orlando Silva, do Esporte, sugeriram aos brasileiros que as denúncias de corrupção já não são respondidas com indiferença cínica pelo governo. Griselda foi baseada em uma faz-tudo portuguesa do bairro de Santa Teresa que Aguinaldo Silva conheceu na década de 70. O autor guardou essa encarnação de retidão e honestidade por mais de trinta anos, para apresentá-la ao público no oportuníssimo momento em que se fala de uma “faxina” ética. Foi ao encontro das ansiedades e esperanças do público. Em um grupo de discussão com 120 mulheres das classes A até a D, Griselda, dona de um caráter inabalável, apareceu como a personagem mais citada quando se perguntava às espectadoras “quem você gostaria de ser?”
”O QUE EU FAÇO É JORNALISMO” – De Lisboa, onde mantém uma de suas cinco casas, Aguinaldo Silva, de 67 anos, o autor de Fina Estampa, falou a VEJA sobre Griselda, ascensão social, educação dos filhos – e, sobretudo, sobre a arte de escrever uma novela de sucesso.
– Por que o senhor optou por uma protagonista pobre?
– Quero tirar a novela dessa mesmice dos ambientes de classe média alta, daqueles comentários fúteis do tipo “Comprei um cinto em Milão por 500 euros”. Chega. As pessoas estão cheias desse lado metido a besta das novelas.
– O que a classe C quer ver na televisão?
– Ela quer ver o povo como ele é – não apenas no núcleo cômico das novelas, como sempre faziam, ou ridicularizado nos programas humorísticos. Ela quer ver sua própria ascensão, e ter orgulho disso. O fato de a heroína ser batalhadora e ascender, mas também lutar para que a fortuna ganha na loteria não lhe mude o caráter, faz com que essas pessoas se identifiquem com Griselda. Elas têm orgulho da personagem. Griselda é um símbolo da ascensão social que ocorreu no Brasil nos últimos anos.
– Fina Estampa apresenta pais durões com os filhos. É preciso ser mais rígido na educação?
– Tenho uma atitude conservadora em relação à educação dentro de casa. Em geral, os pais têm sido muito lenientes com a educação dos filhos. Enveredamos por um caminho estranho, em que o imperador da casa é a criança. É ela quem comanda, e é intocável. Disseminou-se a ideia de que ela não pode ser corrigida quando está errada. Acredito ser esse um erro fatal que o Brasil está levando às últimas consequências. Hoje, conheço mães que levam empurrões das filhas e até apanham delas. E não é só nas classes mais abastadas que vemos um pai liberando tudo. Não é à toa que você vê meninas de 13 anos grávidas. Isso é resultado da absoluta complacência dos pais.
– No que uma novela pode influir no ambiente doméstico?
– A novela tem de ser exemplar. Não basta divertir, tem de fazer pensar. Griselda sente profundo amor pelos filhos, mas é dura quando eles erram. Faço questão de sempre colocar os filhos chamando Griselda de “senhora”, e chamo a atenção dos meus colaboradores quando se esquecem disso nas falas. É uma volta aos velhos costumes. Gosto de ver essa hierarquia familiar num momento em que as crianças estão soltas demais. Surpreende saber que o público está gostando desse estilo; significa que os pais estão mais atentos para essa leniência. Criança está sempre tentando enganar os pais, e a missão deles é evitar que ela consiga. A educação exige certa dureza.
– Fina Estampa tem um elenco enxuto. Quais as vantagens de trabalhar com um número menor de atores?
– As novelas estavam muito inchadas. Chegou-se ao cúmulo de ter 110 personagens numa produção. É impossível lidar com 110 papéis num capítulo de 45 minutos. Aí, há aqueles que começam a sumir, ou a ficar duas, três semanas sem aparecer. Reduzir o elenco é uma boa sacada de alguns autores, inspirados nas novelas de antigamente.
– O senhor já comentou que não há pressão maior do que escrever uma novela das 9. A maturidade não ajuda a aliviar o trabalho?
– Não, fazer novela está cada vez pior. Acordo às 5 e meia da manhã, tomo banho e sento na frente do computador. Tomo um lanche ao meio-dia, descanso uma hora e sigo trabalhando até a noite. Mas tenho um método para driblar essa rotina terrível: tenho cinco casas e vou pulando de uma para outra. Desde que a novela estreou, já mudei de casa catorze vezes. Se você permanece nove meses trabalhando, comendo e dormindo no mesmo lugar, vendo os mesmo objetos, você enlouquece. É meio maluco, mas um autor de novela adquire o direito a certas loucuras. Além desse trabalho braçal, é preciso administrar o circo que existe em torno da novela, lidar com as críticas e também com esse jornalismo 50 centavos que existe por aí. Se o governo assinasse um decreto proibindo a produção de novelas, diversas publicações seriam extintas.
– A repórter inescrupulosa Marcela (Suzana Pires) é uma resposta aos jornalistas de que o senhor não gosta?
– Não. Mas ri muito quando alguém escreveu que não existe jornalista como aquela. Ora, trabalhei dezoito anos como repórter. Desde os meus tempos, existem as jornalistas periguetes nas redações. Geralmente, são as que se casam com os editores.
– A experiência de jornalista, então, ajuda o senhor no trabalho de novelista?
– Digo que sou jornalista e estou novelista. O que faço nas novelas é jornalismo. Meus personagens têm lead (primeiro parágrafo de um texto jornalístico, que tradicionalmente concentra todas as informações essenciais): quando entram, já avisam quem são, o que são e a que vieram. Além de criar em cima do que vivi, tenho a mania de recortar notícias que podem render novelas ou tramas. Acredito que há três levas de autores de novela. A primeira veio do rádio, como Dias Gomes e Janete Clair. A segunda, das redações. A terceira me preocupa: vem dos condomínios da classe média. Não sei se essa nova geração vai ter fôlego, porque não tem experiência de vida. Escrever uma trama requer 70% de experiência e 30% de talento. É preciso ter vivido muitas situações para escrever.
– O senhor é um usuário assíduo do Twitter. É uma brincadeira, um modo de espairecer?
– Não. Os tempos mudaram. O período do autor encastelado, misterioso, que não fala, está superado. Mas sou um dos únicos que dão a cara para bater. O autor tem de entrar na dança e mostrar que não é aquele cara que escreve e depois fica guardado num vidro de formol. E preciso se mostrar vivo, atuante. E, principalmente, vender o seu peixe, pois ninguém o vende melhor que o autor.
– Está satisfeito com a Fina Estampa que vá no ar?
– Eu tinha uma única dívida em relação a essa novela. Ao contrário de outras, muito movimentadas – com desabamento, avião que cai, terremoto no Japão -, a minha está centrada na emoção. Eu pensava que as pessoas podiam estranhar isso, achar a trama meio parada. Foi só ver o primeiro capítulo para mudar essa impressão. A novela pegou na veia.
– Com que personagem o senhor mais se diverte?
– Com a Tereza Cristina, interpretada por Christiane Torloni, sem dúvida, porque ela é absolutamente desmedida. Acabei de escrever uma cena em que ela acorda e diz que está com fome para o Crodoaldo, interpretado por Marcelo Serrado. Ele pergunta o que “a rainha de todos os Nilos” deseja. Ela diz: “Eu quero um bode cozinhado na fogueira durante três dias e recheado de codornas”. E ele, sério, fala: “Infelizmente, não temos esse artigo na casa”. Tem algo mais divertido que esses diálogos? Com a Griselda, porém, eu me emociono demais. Às vezes, no calor da hora, com 37 páginas para escrever, um autor pode fazer cenas rápidas para facilitar o trabalho. Com ela, é impossível: não posso errar, porque Griselda nunca pode ser trivial. As pessoas estão querendo ouvi-la.
