Veja Rio

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A cena aconteceu em outubro passado. Assim que Paola Oliveira chegou em casa, vinda de uma consulta médica, seu celular tocou. Do outro lado da linha, o diretor Dennis Carvalho foi direto ao assunto: “Você quer ser a protagonista da próxima novela?”. Atordoada, ela mal teve tempo de respirar fundo antes de aceitar o convite. Carvalho, então, lhe passou as coordenadas. No dia seguinte, ela teria de embarcar para Florianó-polis, onde uma equipe já havia iniciado as gravações de Insensato Coração, que estreia nesta segunda-feira (17) na Rede Globo. Ao desligar o telefone, caiu em si, teve uma tremedeira e chorou. Toda a urgência era em razão da saída abrupta de Ana Paula Arósio do elenco. De acordo com a versão oficial, a titular ficou insatisfeita com sua personagem e decidiu pular fora pouco antes das primeiras tomadas (por causa disso, passou a ser chamada nos corredores do Projac de “aquela lá” e acaba de rescindir seu contrato com a emissora). Alheia aos motivos da desistência, Paola, que iria trabalhar em outra produção, ganhou assim seu primeiro papel principal em horário nobre. Por obra do acaso, essa não foi a única vez que um lance do destino lhe impulsionou a carreira. Na verdade, sua trajetória profissional lembra um daqueles contos infantis em que uma fada madrinha invisível balança a varinha e resolve os problemas da mocinha. “O trem da sorte abriu as portas e eu entrei”, reconhece a atriz de 28 anos.

Filha mais velha do major reformado da PM José Everardo e da ex-auxiliar de enfermagem Daniele Helena, Caroline Paola Oliveira da Silva nasceu e cresceu na Penha, bairro paulistano de classe média. Aos 10 anos, já trabalhava numa confecção mantida pelos pais como uma segunda fonte de renda. Simplesmente detestava as funções que lhe eram confiadas: ensacar as peças e carregar as sacolas de roupas. Suas férias eram passadas em casa, jogando bola com os irmãos, Leonardo, 25 anos, e Juliano, 24. No máximo ia para Guapiara, cidade a 270 quilômetros de São Paulo, terra da família materna. Como o dinheiro era contado, frequentou apenas escolas públicas e matriculou-se em um curso de inglês já adulta. Sua primeira viagem internacional foi para Portugal, em 2007.

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Desde pequena, porém, era dona de uma beleza que chamava atenção. Na adolescência, os rapazes a paqueravam com intensidade, fazendo com que o pai durão a levasse e buscasse nas festinhas. Por insistência das amigas, mesmo se achando gorduchinha e com quadris largos, decidiu preencher aos 17 anos uma ficha numa agência de modelos. Não tinha book nem nada. Apenas umas fotos caseiras. “Ninguém podia imaginar que aquilo fosse longe. Todo mundo achava que ela ia desistir”, lembra a tia Abigail Oliveira, 45 anos.

E quase aconteceu. As seleções eram cansativas, a insegurança grande. Paola cursava a faculdade de fisioterapia, chegando a estagiar em casas de repouso. Aos 21 anos, já formada, estava prestes a tentar um concurso para a Santa Casa de Misericórdia. Parecia que tudo se encaminhava para uma vida longe dos holofotes. O golpe do destino veio durante a gravação de um comercial de uma marca de suco, em que ela esnobava o ator Marcello Antony. Sua estampa chamou a atenção de um produtor de elenco da novela Belíssima. Convidada por ele, fez seu primeiro e único teste de câmera para a Globo. Entre dezenas de gravações, apenas a dela saiu sem som e teve de ser refeita. Ninguém sabe até hoje se foi azar ou se a falha técnica acabou por beneficiá-la. Aprovada, mudou-se para o Rio, onde está radicada desde 2005 e hoje mora em uma casa de dois andares e quatro quartos na Barra. De lá para cá, vem emendando um papel no outro. Encarnou a sofrida Sônia em O Profeta (2006) e depois interpretou a professora de tênis Letícia, em Ciranda de Pedra (2007). A confirmação de que não era apenas mais um rostinho bonito veio com a vilã Verônica, em Cama de Gato (2009), uma vez mais com um bafejo da sorte. Na verdade, ela queria fazer a boa moça da trama, papel que coube a Camila Pitanga.

Evidentemente, a casualidade não explica tamanha visibilidade, conquistada com rapidez, em pouco mais de meia década de atuação. Conta ponto a favor de Paola a falta de concorrentes com o seu perfil. Seu rosto de traços delicados, em que assomam os olhos caramelo, combina com personagens que requerem alguma sofisticação, como é o caso da protagonista Marina Drumond, de Insensato Coração, uma designer formada em Milão e integrante de uma família abastada. Ela exibe também um tipo que se encaixa muito bem em personagens provocantes. Suas últimas aparições na TV, no fim do ano passado, são exemplares dessa faceta. Na minissérie Afinal, o que Querem as Mulheres?, hipnotizou o público ao dar vida à sexy artista plástica Lívia. No episódio A Atormentada da Tijuca, de As Cariocas, viveu Clarissa, uma figura igualmente sedutora. Segundo um produtor de elenco da emissora, suas principais rivais nessa seara são Mariana Ximenes, Alinne Moraes, Priscila Fantin, Juliana Paes e Deborah Secco, que faz parte do elenco de Insensato Coração. Do quinteto, apenas Mariana e Alinne têm condições de encarar os mesmos papéis. Priscila é vista como mediana. E as outras duas são donas de um estilo, digamos, mais popular. “Há uma carência na faixa entre 25 e 30 anos. É uma seleção etária delicada, pois elas não são tão novas nem já estão maduras”, afirma Dennis Carvalho, que enumera as razões de a escolha ter recaído sobre Paola: idade, sensualidade e presença em cena.

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Some-se a esses atributos um corpaço de 59 quilos, distribuídos em 1,70 metro, e voilá: eis a receita da protagonista ideal. Quem já a viu de perto sabe que a televisão não faz jus a sua estampa. Sem exagero, Paola é ainda mais bonita ao vivo. Suas aparições como rainha de bateria da Grande Rio, um posto para o qual certas virtudes se impõem (entre elas, carisma, sensualidade e energia), são inesquecíveis. Ironia das ironias, sempre tão admirada pela boa forma, ela teve no visual um empecilho para estrear na Globo. Em 2005, por pouco não perdeu o tal papel em Belíssima, porque, segundo a direção da novela, estava acima do peso. Foi então que entrou em cena outra de suas qualidades: a determinação. Com rígida disciplina, seguiu à risca o conselho dos figurinistas que, na prova de roupas, lhe sugeriram que passasse a alface e água até o começo das gravações. Cortou doces e frituras do cardápio e conseguiu baixar o ponteiro da balança em 3 quilos, passando de 65 para 62 quilos. “Fizemos cinco testes com ela. Afinal, lançar um novato é sempre arriscado”, conta a diretora Denise Saraceni. “No fim, ela acabou superando todas as expectativas.”

Ciente de que seu êxito guarda relação direta com a silhueta, vive em luta constante contra a balança. Recentemente, pôs o chocolate no índex de sua dieta. Não é a primeira vez. De tempos em tempos, pouco antes das gravações de novelas ou minisséries, Paola repete um ritual de privação. Quando a vontade aperta, consola-se sentindo apenas o aroma de uma barra. Esforço semelhante enfrenta para manter o corpo definido. Malha três vezes por semana, um sacrifício enorme para quem odiava academia de ginástica. “Por causa da televisão, comecei uma rotina rígida de treinos”, assume. Mãos levantadas, jura que sua única intervenção cirúrgica foi uma lipoaspiração para acabar com o culote. “Já havia tentado tudo: academia, massagem, cremes. A cirurgia resolveu algo que me incomodava profundamente”, afirma. Com o cabelo e com a pele, faz vigilância permanente. É só a agenda dar uma brecha e ela corre para o consultório da dermatologista Juliana Neiva e o salão do cabeleireiro Tiago Parente.

Ao contrário de outras atrizes que gostam de badalar e são fotografadas em restaurantes ou boates, tudo em seu dia a dia gira em torno da profissão — inclusive os relacionamentos. Namorou o professor de teatro Hudson Senna e em seguida o ator Maurício Mattar, antes de iniciar, em setembro de 2009, um romance com o também colega de profissão Joaquim Lopes, que ela conheceu no set do longa Uma Professora Muito Maluquinha e com quem está até hoje. Na época, Joaquim era noivo da atriz Thais Ferzosa. Eles chegaram a se casar em abril de 2009, mas separaram-se dois meses depois. “Não rolou nada durante as filmagens”, diz Paola. “Começamos a namorar depois que eles já estavam separados.” Hoje os dois passam a maior parte do tempo em casa, fazendo o circuito teatro-restaurante-cinema. No mais, é trabalho atrás de trabalho, uma rotina da qual Paola parece gostar. “Ela entrou numa fria. Eu a tranquei durante três dias num quarto de hotel para decorar trinta capítulos”, conta Dennis Carvalho. “Mas ela tem demonstrado muito profissionalismo.” Autor de Insensato Coração, Gilberto Braga também está satisfeito com a nova protagonista. “Sou um amante da beleza, e ela é linda”, afirma o novelista. Agora Paola deseja provar que, além de bela, disciplinada e abençoada pelo destino, é talentosa.

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