Shopping popular que marcou época no Brasil afundou em dívidas milionárias, perdeu força no mercado e acabou decretando falência

Durante décadas, a cidade de São Paulo concentrou alguns dos centros comerciais mais movimentados do país. Muitos deles nasceram em momentos de forte crescimento econômico, atraíram milhares de consumidores e ajudaram a transformar bairros inteiros.

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Porém, nem todos conseguiram sobreviver às mudanças do mercado, ao avanço da concorrência e, principalmente, aos problemas financeiros. Entre os casos que mais chamaram atenção está o do Shopping Center Matarazzo, empreendimento que marcou época na zona oeste da capital paulista e que, anos depois, acabou envolvido em dívidas, disputas administrativas, leilão judicial, ordem de despejo e, por fim, desapareceu do mapa comercial brasileiro.

A história do local ainda desperta curiosidade justamente porque ele funcionou em uma região valorizada, tinha uma marca tradicional ligada a uma das famílias empresariais mais conhecidas do Brasil e, mesmo assim, não resistiu ao peso da crise.

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O antigo Shopping Center Matarazzo (Foto: Divulgação)

Para entender o que aconteceu, é preciso voltar ao ano de 1975. Naquele período, o Shopping Center Matarazzo abriu as portas no bairro da Pompéia, em uma área estratégica entre a então Rua Turiaçu, atualmente chamada Rua Palestra Itália, e a Avenida Pompéia. O projeto nasceu ligado às antigas Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, grupo empresarial que durante décadas exerceu enorme influência na indústria nacional.

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O shopping foi planejado em formato strip center, modelo comercial em que um grande supermercado funciona como âncora e várias lojas menores operam ao redor. Na época, o empreendimento ganhou força com a presença do supermercado Jumbo Eletro e de uma unidade do McDonald’s instalada no estacionamento externo. Durante seus primeiros anos, o fluxo de consumidores era considerado positivo, especialmente entre moradores da Pompéia e da Barra Funda.

Com o passar do tempo, o cenário começou a mudar. O setor de shopping centers no Brasil passou por uma forte expansão no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Novos empreendimentos surgiram com estruturas maiores, mais opções de lazer e marcas mais conhecidas. Em 1991, a inauguração do West Plaza alterou completamente a dinâmica comercial da região. O novo concorrente atraiu parte do público e obrigou o Shopping Matarazzo a buscar mudanças para continuar relevante.

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A queda do gigante shopping

Foi nesse momento que surgiram os primeiros sinais de instabilidade. Uma disputa interna envolvendo a família Matarazzo e o Grupo Pão de Açúcar afetou diretamente a operação do shopping. O supermercado Jumbo Eletro, que funcionava como loja âncora, fechou as portas. Vale explicar: uma loja âncora é aquela operação de grande porte que atrai consumidores e ajuda a movimentar todo o restante do centro comercial. Quando uma loja desse porte deixa um empreendimento, o impacto costuma atingir praticamente todos os lojistas.

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Shopping Center Matarazzo foi o primeiro da região da Pompeia (Foto Reprodução/Internet)

Após essa saída, o espaço foi ocupado pelo supermercado Cândia, que posteriormente passou para a rede Sonda. Além disso, a administração tentou revitalizar o local com praça de alimentação e uma pista de patinação chamada Maxi-Roller. Mesmo com essas iniciativas, o empreendimento já enfrentava dificuldades para recuperar o fluxo de visitantes.

Mas afinal, o que significa falência em um caso como esse? Quando uma empresa ou empreendimento não consegue pagar dívidas acumuladas e perde a capacidade de manter suas obrigações financeiras, credores podem recorrer à Justiça para cobrar valores. Dependendo da situação, bens podem ser penhorados, leiloados ou transferidos para quitar parte dessas obrigações.

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Foi exatamente isso que aconteceu com o Shopping Matarazzo. Em 1997, depois de anos tentando recuperar o negócio, o empreendimento foi levado a leilão judicial por causa das dívidas e de problemas administrativos. O imóvel acabou arrematado pelo grupo gaúcho Zaffari por cerca de 18,5 milhões de reais.

Mesmo após a venda, o shopping continuou funcionando por alguns anos, algo relativamente comum em processos desse tipo, já que novos proprietários podem manter operações em andamento enquanto definem o futuro do imóvel.

A situação, no entanto, ainda estava longe de um desfecho. Em 2002, uma nova disputa judicial ganhou força. O supermercado Sonda, que operava no local, passou a enfrentar uma ordem de despejo emitida pelos novos donos. O que é uma ordem de despejo? Trata-se de uma determinação judicial que exige a desocupação de um imóvel, geralmente por quebra contratual, inadimplência ou encerramento de acordos comerciais.

A disputa foi parar nos tribunais e prolongou a sobrevida do empreendimento. Enquanto isso, consumidores observavam corredores cada vez mais vazios, lojas fechadas e um ambiente distante dos anos de maior movimento. Relatos de frequentadores da época descrevem um shopping decadente, com baixa circulação e poucas operações abertas, algo comum em centros comerciais que entram em processo de esvaziamento econômico.

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O Shopping Matarazzo foi inaugurado nos anos 70 (Foto: Reprodução / Facebook)

Depois da resolução dos impasses judiciais, o destino do Shopping Matarazzo finalmente foi definido. O centro comercial encerrou suas atividades, foi demolido e deu lugar a um novo projeto imobiliário. No mesmo terreno, anos depois, nasceu o Bourbon Shopping São Paulo, inaugurado em março de 2008, marcando oficialmente o fim de um dos empreendimentos mais lembrados da região.

A trajetória do Shopping Center Matarazzo mostra que localização privilegiada, tradição familiar e reconhecimento de marca nem sempre garantem sobrevivência no mercado. Mudanças de comportamento do consumidor, concorrência direta, falhas administrativas e endividamento podem transformar um símbolo comercial em parte da memória urbana.

No caso do Matarazzo, o que começou como um centro de compras promissor terminou como um exemplo clássico de como dívidas e disputas judiciais podem mudar completamente o destino de um empreendimento