Supermercado dá adeus após 66 anos de história e gigante do varejo encerra trajetória depois de venda para rival em Curitiba no Paraná
O que durante décadas pareceu impossível para muitos consumidores do Sul do Brasil acabou se tornando realidade em Curitiba. A tradicional rede de supermercados Mercadorama, uma das marcas mais conhecidas do varejo paranaense, perdeu espaço dentro de uma ampla reestruturação internacional e viu sua identidade desaparecer das fachadas após uma longa trajetória iniciada em 1951.
Durante 66 anos, a empresa construiu uma relação direta com famílias de diferentes gerações, ajudou a transformar hábitos de consumo e participou de momentos importantes da expansão comercial de Curitiba e de outras cidades do Paraná.
O que começou como um negócio familiar se tornou referência regional, cresceu, liderou o setor e, anos depois, acabou absorvido por decisões corporativas tomadas muito longe do consumidor que se acostumou a entrar naquele mesmo supermercado de bairro semana após semana. Quando a mudança finalmente aconteceu, muitos clientes perceberam que não estavam apenas vendo uma troca de fachada, mas sim o encerramento de uma história que marcou o comércio local por mais de seis décadas.

A trajetória da empresa começou pelas mãos de José Luiz Demeterco, que fundou oficialmente o Mercadorama em 1951 na Praça Tiradentes, no centro de Curitiba. A rede nasceu em um momento em que o modelo de autoatendimento ainda dava seus primeiros passos no Brasil, algo que colocou a marca entre as pioneiras do setor no estado.
Com o passar dos anos, a empresa ampliou operações, abriu novas unidades e se consolidou como um símbolo do varejo regional. Nos anos 1990, o Mercadorama já ocupava posição de destaque e era apontado como a maior rede do setor no Paraná. Para muitos consumidores, fazer compras naquele supermercado significava manter uma rotina familiar, encontrar funcionários conhecidos e confiar em uma marca que parecia sólida o bastante para atravessar qualquer mudança econômica.
A primeira grande virada aconteceu em 1998. Naquele ano, a família fundadora vendeu a operação para a portuguesa Sonae Distribuição Brasil. O negócio abriu uma nova fase de expansão e modernização. A rede ganhou investimentos, reformou lojas e fortaleceu sua presença no mercado. O consumidor continuou encontrando o mesmo supermercado na fachada, mas nos bastidores o comando já tinha mudado.
Mudança na rede de supermercados
Em 2005, uma nova transformação ocorreu. A gigante americana Walmart assumiu o controle das operações após comprar os ativos administrados pela Sonae no Brasil. A mudança parecia estratégica. O grupo internacional buscava fortalecer sua presença nacional e enxergava no Mercadorama uma marca consolidada no Sul. Durante alguns anos, o nome permaneceu vivo, e o cliente seguia entrando no mesmo supermercado sem grandes alterações aparentes.

O cenário começou a mudar de forma mais visível em 2017. Naquele momento, o Walmart anunciou uma reestruturação nacional. O plano previa o encerramento de marcas regionais para concentrar operações sob uma identidade única. Na prática, isso significava retirar o nome Mercadorama das fachadas e substituí-lo pela marca Walmart Supermercados.
Algumas unidades de Curitiba passaram por reformas, mudanças visuais e reposicionamento interno. O consumidor que chegava ao supermercado do Jardim das Américas ou do Juvevê já encontrava outra comunicação visual, outras cores e uma experiência que tentava seguir um padrão internacional.
Mas a história ainda teria outra reviravolta. Em 2018, o fundo Advent International comprou 80% do Walmart Brasil. A operação deu origem a uma nova reorganização empresarial. Algumas mudanças planejadas foram revistas, e certas lojas voltaram temporariamente a utilizar o nome Mercadorama. Para muitos clientes, parecia que o tradicional supermercado curitibano ainda teria uma nova chance.
Essa expectativa, porém, não durou muito tempo. Em 2021, outra decisão estratégica colocou um ponto final na marca. O então Grupo BIG, sucessor das operações do Walmart no país, iniciou a substituição definitiva das unidades Mercadorama pela bandeira Nacional. Em outras palavras, o nome histórico deixaria de existir nas fachadas. Cada supermercado passou por uma nova conversão, encerrando oficialmente uma marca que havia acompanhado gerações inteiras.
É importante entender que, no varejo, “bandeira” significa o nome comercial usado para identificar uma rede perante o público. Quando uma empresa troca sua bandeira, ela não necessariamente fecha as portas.
Muitas vezes, ela continua funcionando no mesmo endereço, com os mesmos funcionários e até com parte do mesmo público, mas com nova identidade visual e nova estratégia comercial. Foi exatamente isso que aconteceu com cada supermercado que carregava o nome Mercadorama.
Hoje, o desaparecimento da marca continua sendo lembrado por consumidores de Curitiba como o fim de uma era. O Mercadorama não foi apenas mais um supermercado que mudou de dono. Ele representou pioneirismo, crescimento regional, tradição familiar e transformação do comércio paranaense. O nome saiu das fachadas, mas permaneceu na memória de quem acompanhou sua caminhada de 1951 até o início de sua transformação em 2017, completando 66 anos de uma história que ajudou a moldar o varejo no Sul do Brasil.
