Detalhes revelados pelo biógrafo Ullisses Campbell expõem a estratégia de defesa da detenta, bastidores de exames criminológicos e comportamento na prisão
Durante entrevista ao podcast Venus, em 2023, o pesquisador e jornalista Ullisses Campbell, autor da biografia de Suzane Von Richthofen, revelou os bastidores de como a condenada por um dos crimes mais marcantes do país tentou desconstruir a qualificadora de motivo torpe durante o processo.
Além disso, ele ainda detalhou sua conduta frente aos laudos criminológicos que a definem como manipuladora e narcisista.
Desespero ou frieza?
Ainda na fase que antecedeu o seu julgamento, Suzane, que cursava Direito na época do crime, buscou interferir diretamente na linha de atuação de sua banca de advogados.
O objetivo principal era derrubar o motivo torpe, elemento que aumentaria significativamente a sua pena.
De acordo com Campbell, a argumentação utilizada chocou os próprios defensores pela total ausência de empatia.
Ela alegou que os pais só haviam morrido porque se puseram contra o seu namoro com Daniel Cravinhos, sustentando que, se eles não tivessem agido contra o relacionamento, o crime não teria acontecido.
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Para ela, o argumento central era: “não é motivo torpe. Era a minha felicidade que estava em jogo, era eu e o Daniel”.
Queria ver os pais mortos
Talvez o detalhe mais perturbador seja que, durante a preparação para o júri popular, Suzane fez um pedido um tanto bizarro.
Em suma, ela exigiu acesso à íntegra dos autos do processo, incluindo “ver as fotos dos pais mortos”, segundo Campbell.
Os advogados até recomendaram a remoção dos laudos do Instituto Médico Legal (IML), que continham as imagens fortes da cena do crime e do necrotério.
Mas a ré rejeitou o conselho e ordenou o envio do material completo, afirmando:“Não, não, eu quero o processo completo com todas essas fotos”.
Na cela, ela passou dias analisando minuciosamente as fotografias dos corpos dos pais, o que, segundo o jornalista, acabou engatilhando pesadelos frequentes com a mãe no período.
O teste de Rorschach
Para alcançar progressões de regime, o sistema judiciário exige o cumprimento do exame criminológico, avaliação técnica que mapeia a mente do detento.
O teste projetivo de Rorschach, composto por pranchas com manchas de tinta abstratas, desempenhou papel central no diagnóstico de Suzane.
O laudo final apontou traços de personalidade insidiosa, alta capacidade de manipulação e risco de reincidência sob forte pressão ambiental.
Durante a aplicação, Suzane tentou burlar o teste com respostas previamente decoradas sobre “pombinhas voando” e figuras dóceis.
Os aplicadores, contudo, desmascararam a farsa ao notar sua familiaridade artificial com as lâminas sigilosas.
Suzane se arrependeu de matar os pais?
Ao passar pelas sabatinas psicológicas para obter benefícios, Suzane costumava repetir exaustivamente a frase “estou muito, muito, muito arrependida”.
No entanto, ela falhava sucessivamente na avaliação de psicólogos e assistentes sociais ao explicar o motivo.
Em vez de demonstrar remorso pela perda da vida dos pais, seu discurso focava de forma egocêntrica nos prejuízos que o crime trouxe para a sua própria rotina, lamentando:
“Eu matei meus pais. Eu acabei com a minha vida. Destruí a vida do meu irmão. Aí fiquei presa, podia ter uma vida, podia estar casada”.
Para os peritos, ela reprovava porque computava o crime como um prejuízo próprio.
Além disso, a destruição de seu núcleo familiar a deixou sem um endereço fixo de acolhimento para apresentar à Justiça, o que a levou a investir em correspondências afetivas com o ambiente externo para garantir um comprovante de residência válido e acelerar sua ida ao regime semiaberto.
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Autor(a):
Lennita Lee
Jornalista com formação em Moda pela Universidade Anhembi Morumbi e experiência em reportagens sobre economia e programas sociais. Com olhar atento e escrita precisa, atua na produção de conteúdo informativo sobre os principais acontecimentos do cenário econômico e os impactos de benefícios governamentais na vida dos brasileiros. Apaixonada por dramaturgia e bastidores da televisão, Lennita acompanha de perto as movimentações nas principais emissoras do país, além de grandes produções latino-americanas e internacionais. A arte, em suas múltiplas expressões, sempre foi sua principal fonte de inspiração e motivação profissional.



