Lei propõe fim gradual da jornada de 44 horas semanais e abre caminho para mudança histórica nos direitos dos trabalhadores CLT brasileiros
A proposta de lei que prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais avançou no Senado e movimentou o cenário trabalhista no país. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou o texto da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 19/2024, que altera a forma de cálculo do piso salarial dos profissionais de enfermagem. A mudança estabelece uma nova base de horas semanais, reduzindo a carga considerada para o pagamento mínimo da categoria.
A aprovação ocorreu após forte pressão de entidades representativas, que há anos cobram melhores condições de trabalho e valorização profissional. Agora, o texto segue para votação no plenário do Senado, etapa decisiva antes de avançar para a Câmara dos Deputados.

A medida não altera automaticamente a jornada de todos os trabalhadores com carteira assinada, conhecidos como CLT, sigla para Consolidação das Leis do Trabalho, que reúne as regras trabalhistas do país.
A proposta tem foco direto nos profissionais da enfermagem, incluindo enfermeiros, técnicos, auxiliares e parteiras. Atualmente, o piso salarial da categoria considera uma jornada de até 44 horas semanais. Isso significa que, quando o profissional trabalha menos horas, o valor recebido pode sofrer redução proporcional.
Com a nova proposta de lei, o cálculo passa a considerar 36 horas semanais como base, sem reduzir o salário. Na prática, isso representa um ganho real para a categoria, já que o trabalhador poderá cumprir menos horas sem perder rendimento.
O que muda com a nova lei apresentada?
A Proposta de Emenda à Constituição, conhecida como PEC, funciona como uma alteração direta no texto da Constituição Federal. Esse tipo de mudança exige um processo mais rigoroso do que projetos de lei comuns. Primeiro, a proposta passa por comissões temáticas, como a CCJ, que analisa a legalidade e a constitucionalidade do texto.
Depois, o plenário do Senado precisa votar a proposta em dois turnos. Em cada votação, é necessário o apoio de pelo menos três quintos dos senadores. Se for aprovada, a PEC segue para a Câmara dos Deputados, onde também precisa passar por duas votações. Só após todas essas etapas a mudança pode ser promulgada e passar a valer.
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho não surgiu agora. Especialistas, sindicatos e trabalhadores debatem o tema há anos, principalmente em profissões com alto nível de desgaste físico e emocional. A enfermagem se encaixa nesse cenário. Esses profissionais enfrentam rotinas intensas, plantões prolongados e situações de pressão constante, muitas vezes lidando com pacientes em estado grave.
Esse contexto reforça a necessidade de uma carga horária menor, tanto para preservar a saúde do trabalhador quanto para garantir um atendimento de melhor qualidade à população.
Durante a tramitação da proposta, o texto inicial previa a redução para 30 horas semanais. No entanto, parlamentares ajustaram o conteúdo para 36 horas como forma de aumentar as chances de aprovação. A mudança buscou equilibrar as demandas da categoria com as preocupações do governo e de gestores públicos. Esses setores temem impactos financeiros, especialmente no orçamento de estados e municípios, que são responsáveis por grande parte das contratações na área da saúde.

Mesmo com o ajuste, representantes da enfermagem consideraram a aprovação na comissão um avanço significativo.
Detalhes
Outro ponto importante envolve o piso salarial da categoria. O piso representa o valor mínimo que um trabalhador pode receber por lei em determinada profissão. No caso da enfermagem, a proposta garante que esse valor seja calculado com base na nova jornada de 36 horas.
Além disso, o texto prevê a atualização anual do piso com base na inflação. A inflação mede o aumento geral dos preços ao longo do tempo. Quando os salários não acompanham esse aumento, o trabalhador perde poder de compra. Por isso, a previsão de reajuste anual busca proteger a renda desses profissionais.
Apesar do avanço, a proposta ainda não entrou em vigor. O texto precisa passar por novas votações e pode sofrer alterações durante o processo legislativo. Esse tipo de proposta costuma enfrentar resistência, principalmente por envolver custos adicionais para o setor público e privado.
A redução da jornada sem diminuição de salário pode aumentar despesas com contratações ou exigir reorganização das equipes de trabalho. Por isso, o tema segue em debate entre parlamentares, especialistas e representantes da sociedade.
A aprovação na CCJ marcou um passo importante, mas não encerrou a discussão. O tema da jornada de trabalho continua em pauta e pode abrir espaço para mudanças futuras em outras categorias profissionais.
Caso a proposta avance e seja promulgada, o Brasil poderá caminhar para um novo modelo de organização do trabalho, com foco maior na qualidade de vida do trabalhador. Ao mesmo tempo, o cenário ainda gera expectativa e incerteza, já que o desfecho depende das próximas votações no Congresso Nacional.
